Coluna Leonardo Belinati: Quem Brinca Com Fogo Se Queima?
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Em junho de 2013, com as pessoas protestando nas ruas, o presidente FHC disse que o aumento das passagens de ônibus foi uma faísca que causou um incêndio por causa de tanta palha seca em volta.
A metáfora é clara: o aumento da passagem de ônibus foi a faísca e a mobilidade urbana de quinto mundo a palha seca, que somada aos gastos e a má execução daCopa do Mundo, a precariedade dos serviços básicos do Estado, os escândalos de corrupção, enfim, formaram um palheiro enorme, tão vasto que a mensagem e as pessoas acabaram se dispersando, deixando uma capa de cinzas aparentemente controlada.
Mas basta chuchar aqui e ali para ver que por baixo da cinza ainda há brasa ardendo firme. A intolerância social cresce a cada dia, a polarização política atinge níveis que impedem qualquer conversa razoável e os “bombeiros” não sabem o que fazer. Na intimidade todos eles sabem que foram negligentes em deixar juntar tanta palha e que agora o incêndio é incontrolável.
Para piorar, as labaredas do vizinho são cada vez mais altas. Na Venezuela a situação é basicamente igual a nossa, só que mais grave: a polarização política é extrema, a inflação galopa, a imprensa está amordaçada, faltam produtos de primeira necessidade e o governo apelou para a repressão colérica. Lá a faísca foi a prisão de três líderes estudantis. Dez meses depois os estudantes cansaram de esperar por Justiça, se levantaram e a reação foi a pior possível. Já são quatro mortos pelas tropas oficiais e as imagens são brutais, com policiais usando soco-inglês, chutando cabeças no chão, usando munição letal.
Ante estas atrocidades o Mercosul, inacreditavelmente, se solidarizou com o presidente Nicolas Maduro, botando a mão no fogo do caudilhismo contra a democracia. Como contraponto há a nota da União Europeia, que pediu calma aos representantes de toda a sociedade, reafirmando que a liberdade de expressão e o direito de participar de manifestações pacíficas são essenciais.
Mas o discurso do Mercosul não se realiza. A reunião da cúpula, que pelo rodízio pré-estabelecido deveria ter acontecido em Caracas no final do ano passado, já foi adiada três vezes e não há previsão nem clima para definir nova data. E nem pressa: as presidentas Cristina Kirchner, da Argentina, e Dilma Rousseff, do Brasil, já têm palha suficiente em seus currais para ir brincar com fogo na Venezuela. Mesmo assim, a chance do incêndio se alastrar pela América Latina, qual a Primavera Árabe pelo Oriente Médio, é enorme. Diria até que a questão já é quando, e não se vai acontecer.
No caso do Brasil, não dá para adiar a Copa nem as Eleições e muito menos calar a imprensa, notadamente a internacional que estará por aqui em peso e não precisa das verbas do governo federal. Vamos ter que enfrentar o fogo com o mundo inteiro assistindo. E é capaz que falte água.
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